Prefeitura admite que só 7 das 22 obras previstas em áreas de risco estão em andamento

Originalmente publicado em O GLOBO – 02/10/2019

Uma delas, no Morro da Babilônia, que consta como “em execução”, não saiu do papel, de acordo com moradores da comunidade do Leme

Por Renan Rodrigues

RIO — Um mapeamento da prefeitura em dez comunidades do Rio identificou 68 locais que precisam de intervenções para que, nos próximos temporais, não se repitam as tragédias do início do ano, quando 16 pessoas morreram em consequência de alagamentos e deslizamentos de terra. Entre as 115 ações necessárias apontadas num relatório entregue no último dia 13 à CPI das Enchentes da Câmara Municipal, estão, além da limpeza de rios e da remoção de árvores, a realização de 22 obras. No entanto, apenas sete estariam em andamento. E uma delas, no Morro da Babilônia, que consta como “em execução” no documento, não saiu do papel, de acordo com moradores da comunidade do Leme.

A estabilização de uma encosta do Morro da Babilônia — onde um deslizamento matou três pessoas em abril — foi orçada em R$ 4,5 milhões. Segundo o relatório, a reconstrução de um sistema de drenagem seria executada num prazo de até 365 dias em duas etapas — uma emergencial e outra a ser ainda licitada. A intervenção emergencial, diz o documento, está em andamento, mas moradores contestam a informação. Uma equipe do GLOBO esteve ontem no local e não encontrou operários trabalhando.

— Parece que a GEO-Rio já tem um projeto de contenção de encostas pronto, mas falta dinheiro. Isso é uma bomba-relógio. As rochas daqui estão em risco. O que pode acontecer na próxima chuva? — indaga o artista plástico Marqo Rocha, que teve sua casa e seu ateliê, na Rua Roberto Dias Lopes, destruídos pela enxurrada de abril e diz esperar a realização da obra de contenção para voltar ao endereço com segurança.

Na Rocinha, onde as imagens de carros sendo levados pelas águas, no início do ano, ganharam as redes sociais, a situação não é melhor. Das cinco obras recomendadas no relatório, três delas, orçadas em R$ 9,2 milhões, ainda aguardam licitação. As duas que já começaram, ambas para demolir casas em áreas de risco, têm desagradado moradores. Eles reclamam da falta de transparência sobre quais imóveis irão ao chão e criticam o atraso no pagamento do aluguel social, de R$ 400, para quem perdeu residências.

A empregada doméstica Paula Santos, de 51 anos, teve a casa que ergueu há dois anos na Rua José Inácio, no Laboriaux, interditada em abril. O imóvel foi demolido pelo município no início de junho, e, sem receber o aluguel social, ela diz que até passa fome.

— Em agosto, o dinheiro caiu no dia 7, mas, em setembro, ainda não recebi. Aluguei uma quitinete para morar com meu filho de 13 anos, mas o aluguel custa R$ 600. Ganho R$ 1.300 e ainda tenho que pagar o empréstimo que fiz com a minha patroa para construir a casa que foi derrubada. Meu filho me mandou mensagem agora dizendo que está com fome. Não está sobrando dinheiro para comprar comida. — desabafa Paula, que acrescenta: — A prefeitura não falou nada até o momento sobre residência.

Os números das obras em áreas de riscos

  • 10 Comunidades: Número de favelas onde a prefeitura analisou que ações são necessárias para impedir tragédias nas próximas chuvas fortes
  • 115 ações: Quantidade de intervenções necessárias, que vão desde a remoção de árvores e limpeza de rios à realização de obras
  • 22 obras: Número de intervenções que devem ser feitas nas dez comunidades. Hoje, só sete estariam em andamento, segundo o relatório do município
  • 2,2 mil casas: Quantidade de imóveis que deveriam ser erguidos na Favela do Jacarezinho. Porém não há ainda fontes de financiamento para a construção

Além da Babilônia e da Rocinha, o relatório entregue à CPI das Enchentes também analisou as condições de comunidades de outras oito regiões: Santa Teresa, Vidigal, Horto, Manguinhos, Jacarezinho, Vargem Grande, Barra de Guaratiba e Jardim Maravilha.

No Vidigal, outra área muito atingida nos últimos temporais, levando até à interdição da Avenida Niemeyer, 29 residências precisarão ser demolidas para a reconstrução de um cinturão de esgoto. Lá, onde serão empregados R$ 2,1 milhões ao longo de quatro meses, as obras já começaram. No entanto, há casos de intervenções que sequer possuem prazo previsto e custo estimado, como o projeto para a construção de 2,2 mil habitações na área da antiga fábrica da General Eletric (GE) no Jacarezinho. A apresentação feita aos vereadores deixa claro que falta muito para retirar moradores de áreas sujeitas a alagamento: desde descontaminação do solo e desapropriação do terreno até fontes de financiamento.

Presidente da CPI das Enchentes, o vereador Tarcísio Motta (PSOL) avalia que faltam muitas ações para evitar novas tragédias no próximo verão:

— A prefeitura usa sempre a desculpa da falta de dinheiro, mas temos notado que falta também decisão política e eficiência na gestão de recursos. Há problemas gravíssimos de planejamento. Não há, por exemplo, planejamento sobre quais rios devem sofrer intervenções prioritárias.

Procurada seis vezes desde o último dia 20 para comentar o assunto, a prefeitura não se manifestou.